Todos os anos, a 2 de fevereiro, celebra-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, uma data que assinala a assinatura da Convenção de Ramsar, em 1971, tratado internacional dedicado à conservação e ao uso racional das zonas húmidas de importância mundial, especialmente enquanto habitat de aves aquáticas.
Este dia é uma oportunidade para reconhecer o papel essencial que as zonas húmidas desempenham na biodiversidade, na adaptação às alterações climáticas e no bem-estar humano, mas também para alertar para as ameaças que enfrentam e para a necessidade urgente da sua conservação, restauro e gestão sustentável.
🌿 O que são as zonas húmidas e porque são tão importantes?
As zonas húmidas são ecossistemas caracterizados pela presença de água, permanente ou temporária, e incluem ambientes tão diversos como marismas, estuários, lagoas, salinas, arrozais, pântanos ou margens fluviais.
Apesar de ocuparem uma pequena percentagem da superfície terrestre, desempenham funções ecológicas fundamentais:
- São habitats essenciais para aves aquáticas e costeiras, residentes e migratórias, oferecendo locais de alimentação, descanso, reprodução e passagem migratória.
- Regulam o ciclo da água, ajudando a reduzir cheias e secas e a recarregar aquíferos.
- Contribuem para a mitigação e adaptação às alterações climáticas, armazenando carbono e amortecendo eventos extremos.
- Melhoram a qualidade da água, funcionando como filtros naturais.
Além disso, muitas zonas húmidas têm um importante valor social, cultural e económico, associado ao turismo de natureza, à educação ambiental e a usos tradicionais.
No entanto, a nível global, as zonas húmidas estão entre os ecossistemas mais degradados, tendo-se perdido uma grande parte da sua extensão nas últimas décadas.
🐦 Zonas húmidas e aves no inverno na Península Ibérica
Na Península Ibérica, as zonas húmidas interiores e costeiras funcionam como uma rede interligada de habitats essencial para as aves aquáticas e costeiras. Este mosaico permite que as aves encontrem, ao longo do ano e especialmente no inverno:
- alimento disponível,
- áreas de descanso e refúgio,
- locais adequados para completar o seu ciclo vital.
Durante os meses mais frios, muitas espécies dependem fortemente da disponibilidade de água e recursos alimentares oferecidos por estes habitats, tornando as zonas húmidas peças-chave para a sua sobrevivência.
🧠 Zonas húmidas naturais e artificiais: ambas fundamentais
Para além das zonas húmidas naturais, como estuários e marismas, existem zonas húmidas artificiais que desempenham um papel ecológico muito relevante, como:
- salinas tradicionais,
- arrozais,
- albufeiras e sistemas geridos.
Quando bem geridas, estas áreas oferecem níveis hídricos previsíveis, alimento abundante e zonas favoráveis para descanso ou nidificação, funcionando como habitats complementares aos sistemas naturais.
Este papel torna-se ainda mais importante face à perda de habitats costeiros causada pela subida do nível do mar, associada às alterações climáticas. O abandono ou a degradação destas zonas húmidas artificiais tem impactos diretos e negativos nas populações de aves costeiras.
🛠️ O papel do projeto IBERALEX nas zonas húmidas
O projeto IBERALEX integra a conservação e a gestão de zonas húmidas naturais e artificiais como um dos seus eixos centrais de atuação, com o objetivo de:
- valorizar a importância destes habitats para as aves,
- promover a sua gestão sustentável,
- melhorar o estado de conservação do borrelho-de-coleira-interrompida e das espécies associadas.
As ações do projeto desenvolvem-se em diferentes zonas húmidas da Península Ibérica, entre as quais:
📍 Portugal
- Salinas artesanais do Algarve, Aveiro e Coimbra, onde se realizam ações de monitorização, sinalização, gestão do habitat e educação ambiental.
📍 Espanha
- Salinas da Baía de Cádis, importantes para aves migratórias e invernantes.
- Arrozais e albufeiras do interior, nomeadamente na Extremadura, que funcionam como habitats complementares durante períodos críticos.
Estas ações assentam numa abordagem integrada que combina ciência, conservação, gestão do território e envolvimento da comunidade.
🌊 A ligação entre praias e zonas húmidas
Compreender a interconexão entre praias, dunas e zonas húmidas é essencial para implementar políticas eficazes de conservação da biodiversidade. As aves costeiras utilizam diferentes habitats ao longo do ano, dependendo da fase do seu ciclo de vida.
No caso do borrelho-de-coleira-interrompida, a alternância entre praias arenosas e zonas húmidas é fundamental para alimentação, descanso e reprodução, tornando indispensável uma visão integrada da conservação do litoral.
💡 O Dia Mundial das Zonas Húmidas como oportunidade de ação
O Dia Mundial das Zonas Húmidas é mais do que uma data comemorativa. É um convite à reflexão e à ação, destacando a necessidade de:
- valorizar os serviços ecossistémicos das zonas húmidas,
- apoiar a recuperação de habitats degradados,
- promover uma gestão sustentável,
- reconhecer que proteger as zonas húmidas é essencial para a biodiversidade e para a sociedade.
Conclusão
As zonas húmidas são verdadeiros refúgios de vida num contexto de rápidas alterações ambientais. A sua conservação é crucial não só para as aves e para a biodiversidade, mas também para a resiliência dos territórios costeiros e interiores.
Através do projeto IBERALEX, demonstra-se que é possível trabalhar de forma coordenada e eficaz para proteger estes ecossistemas, reforçando a ligação entre ciência, gestão e sociedade, e contribuindo para um futuro mais sustentável e biodiverso.